Por que defendo políticas públicas mesmo sem precisar delas

14 de outubro de 2026


O post de hoje não é exatamente sobre viagens, mas é uma crônica curtinha que conta um pouquinho da minha história e das ideias que defendo. Espero que gostem!

Por que defendo políticas públicas mesmo sem precisar delas 

Acabo de jantar em um restaurante libanês na esquina do prédio onde meu filho mora atualmente. Meu pedido foi kafta com arroz e aletria. Antes de comer, mando uma foto para minha mãe, pois a primeira vez que escutei a palavra “aletria” me causou estranheza. E talvez seja mais estranho ainda relacionar o meu jantar com políticas públicas. Para explicar isso, precisamos voltar um pouco no tempo. 

O ano era 1955 e minha mãe trabalhava em uma casa de libaneses, com apenas 13 anos de idade. Neste trabalho, ela aprendeu a cozinhar vários pratos típicos como quibe, tabule e arroz com aletria. E também aprendeu a detestar banheiras, pois precisava esfregar uma banheira branca que nunca ficava perfeitamente limpa.

Por que, aos 13 anos de idade, minha mãe estava trabalhando de doméstica, ao invés de estar em uma escola estudando? Não foi por falta de motivação, pois ela amava a escola e o conhecimento. O principal motivo é que nessa época, a escolarização não era um direito universal e, com a mudança da família para a cidade, os filhos tiveram que ajudar na renda familiar. Como minha mãe passou do trabalho infantil ao casamento, é um borrão para mim. Nunca conversamos muito a respeito desses anos de sua juventude.

Com o tempo, meus pais construíram uma casa e formaram uma família. Meu pai fez um curso no Senai e conseguiu um emprego digno que assegurou que nunca nos faltasse boa alimentação, cuidado médico, material escolar e alguns dias de férias em Praia Grande. Minha educação formal sempre foi em escolas públicas e, em certo momento do Ensino Médio, resolvi que iria entrar em uma boa universidade, fora da minha cidade. Nesse caso, uma faculdade privada não era uma opção. Em 1992 ingressei no curso de Psicologia da Unesp e dali foram mais alguns passos até o Mestrado e Doutorado na Unicamp.  Nunca dependi de cotas e confesso que tive que estudar muito para compensar as defasagens da educação que recebi em uma escola pública.

Sou uma pessoa que poderia estar agora pregando que o esforço individual conduz aos objetivos. Mas por tudo que pude estudar e refletir em minha vida acadêmica e pessoal, a meritocracia é uma lenda que inventaram para disfarçar o fato de que os jovens partem de situações diferentes, então não é esperado que todos cheguem ao mesmo lugar. Enquanto o desafio de alguns é conseguir se motivar para estudar, o de outros é achar algum espaço para sonhar, enquanto trabalham para ajudar na renda familiar.

Se minha mãe tivesse nascido em 2002 ao invés de 1942, a vida dela poderia ser muito diferente. Ela teria chance de fazer ENEM e, se não entrasse em uma universidade pública, provavelmente conseguiria uma bolsa do PROUNI ou, no mínimo um FIES. Que curso será que ela escolheria? Penso que gostaria de ser professora.

E é por isso que enquanto houver jovens obrigados a abandonar os estudos para garantir o sustento da família, eu vou defender toda sorte de políticas públicas que possam dar o mínimo de chance para que estudem e se profissionalizem. Enquanto houver uma mãe solo lutando para alimentar os filhos, eu vou defender o bolsa família. Enquanto houver um pai que tem apenas um dia para ficar com os filhos, eu vou defender o fim da escala 6x1. Enquanto houver uma mulher sofrendo qualquer tipo de violência, vou combater o discurso de quem quer tirar direitos femininos. Porque isso não é sobre mim... eu já consegui construir a vida que sonhei. Mas agora meu sonho é ainda maior: eu quero um Brasil que seja bom para todos. E para isso, o Estado precisa continuar voltando os olhos para quem mais precisa dele.

3 comentários

  1. Que texto maravilhoso. Também consegui construir minha vida hoje com ajuda do governo. Como? Foi graças a uma faculdade pública que pude ter uma boa formação, passar num concurso e me estabelecer. Se não fosse isso replicar ia a história de minha mãe, solo? Eu luto para que todos tenhamos acesso às coisas! Vamos juntos.

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  2. Isso é a realidade de muitos de nós! Uma história de vida que nos leva a lutar por um mundo melhor para todos!

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