O post de hoje não é exatamente sobre viagens, mas é uma crônica curtinha que conta um pouquinho da minha história e das ideias que defendo. Espero que gostem!
Por que defendo políticas públicas mesmo sem precisar delas
O ano era 1955 e minha mãe trabalhava em uma casa de libaneses, com
apenas 13 anos de idade. Neste trabalho, ela aprendeu a cozinhar vários pratos
típicos como quibe, tabule e arroz com aletria. E também aprendeu a detestar
banheiras, pois precisava esfregar uma banheira branca que nunca ficava
perfeitamente limpa.
Por que, aos 13 anos de idade, minha mãe estava trabalhando
de doméstica, ao invés de estar em uma escola estudando? Não foi por falta de
motivação, pois ela amava a escola e o conhecimento. O principal motivo é que
nessa época, a escolarização não era um direito universal e, com a mudança da
família para a cidade, os filhos tiveram que ajudar na renda familiar. Como
minha mãe passou do trabalho infantil ao casamento, é um borrão para mim. Nunca
conversamos muito a respeito desses anos de sua juventude.
Com o tempo, meus pais construíram uma casa e formaram uma
família. Meu pai fez um curso no Senai e conseguiu um emprego digno que
assegurou que nunca nos faltasse boa alimentação, cuidado médico, material
escolar e alguns dias de férias em Praia Grande. Minha educação formal sempre
foi em escolas públicas e, em certo momento do Ensino Médio, resolvi que iria
entrar em uma boa universidade, fora da minha cidade. Nesse caso, uma faculdade
privada não era uma opção. Em 1992 ingressei no curso de Psicologia da Unesp e
dali foram mais alguns passos até o Mestrado e Doutorado na Unicamp. Nunca dependi de cotas e confesso que tive
que estudar muito para compensar as defasagens da educação que recebi em uma
escola pública.
Sou uma pessoa que poderia estar agora pregando que o
esforço individual conduz aos objetivos. Mas por tudo que pude estudar e
refletir em minha vida acadêmica e pessoal, a meritocracia é uma lenda que
inventaram para disfarçar o fato de que os jovens partem de situações
diferentes, então não é esperado que todos cheguem ao mesmo lugar. Enquanto o
desafio de alguns é conseguir se motivar para estudar, o de outros é achar
algum espaço para sonhar, enquanto trabalham para ajudar na renda familiar.
Se minha mãe tivesse nascido em 2002 ao invés de 1942, a
vida dela poderia ser muito diferente. Ela teria chance de fazer ENEM e, se não
entrasse em uma universidade pública, provavelmente conseguiria uma bolsa do
PROUNI ou, no mínimo um FIES. Que curso será que ela escolheria? Penso que
gostaria de ser professora.
E é por isso que enquanto
houver jovens obrigados a abandonar os estudos para garantir o sustento da
família, eu vou defender toda sorte de políticas públicas que possam dar o
mínimo de chance para que estudem e se profissionalizem. Enquanto houver uma
mãe solo lutando para alimentar os filhos, eu vou defender o bolsa família.
Enquanto houver um pai que tem apenas um dia para ficar com os filhos, eu vou
defender o fim da escala 6x1. Enquanto houver uma mulher sofrendo qualquer tipo
de violência, vou combater o discurso de quem quer tirar direitos femininos.
Porque isso não é sobre mim... eu já consegui construir a vida que sonhei. Mas
agora meu sonho é ainda maior: eu quero um Brasil que seja bom para todos. E
para isso, o Estado precisa continuar voltando os olhos para quem mais precisa
dele.

Que texto maravilhoso. Também consegui construir minha vida hoje com ajuda do governo. Como? Foi graças a uma faculdade pública que pude ter uma boa formação, passar num concurso e me estabelecer. Se não fosse isso replicar ia a história de minha mãe, solo? Eu luto para que todos tenhamos acesso às coisas! Vamos juntos.
ResponderExcluirObrigada, Camila!!!! Seguimos lutando!!!
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